Risco #1: Assédio de qualquer natureza no trabalho
Série Onde mora o Risco
10/6/20264 min read


Quando falamos em riscos psicossociais relacionados ao trabalho, existe um ponto que precisa ser tratado com seriedade: o assédio.
O Ministério do Trabalho e Emprego inclui o assédio de qualquer natureza no trabalho entre os exemplos de fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. A revisão do capítulo 1.5 da NR-1 incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A nova redação entrou em vigor em 26 de maio de 2026.
Isso significa que o tema não deve ser tratado apenas como uma questão de comportamento individual.
O que os dados da Justiça do Trabalho mostram?
Entre 2020 e 2024, a Justiça do Trabalho recebeu 458.164 novas ações envolvendo pedidos de indenização por dano moral decorrente de assédio moral no trabalho.
Entre 2023 e 2024, o número de novas ações passou de 91.049 para 116.739, um crescimento de 28%. Esses dados foram divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com informações da Justiça do Trabalho.
É importante fazer uma distinção:
458.164 não significa que 458.164 pessoas tenham sido vítimas de assédio moral.
O número corresponde a novas ações envolvendo pedidos de indenização por dano moral decorrente de assédio moral no trabalho.
O próprio CNJ também registra que o crescimento das ações pode estar relacionado, entre outros fatores, à maior conscientização de trabalhadoras e trabalhadores sobre seus direitos. Portanto, não é correto transformar o aumento do número de processos em uma medida direta do aumento da ocorrência de assédio nas empresas.
E quando falamos de assédio sexual?
Entre 2020 e 2024, a Justiça do Trabalho recebeu 33.050 novas ações envolvendo pedidos de indenização por dano moral decorrente de assédio sexual no trabalho.
Entre 2023 e 2024, o volume de novas ações passou de 6.367 para 8.612, crescimento de 35%. Segundo o Monitor de Trabalho Decente da Justiça do Trabalho, em sete de cada dez processos relacionados ao tema, a autoria da ação é de pessoas do gênero feminino.
Mais uma vez, é preciso cuidado com a interpretação: estamos falando de processos judiciais, e não de uma pesquisa de prevalência que permita afirmar quantas pessoas sofreram assédio sexual no ambiente de trabalho.
O assédio também precisa ser observado na forma como o trabalho é organizado
Uma pesquisa apresentada pela Fundacentro em 2025 ajuda a ampliar essa discussão.
A tecnologista da Fundacentro Daniela Sanches Tavares defendeu, em abril de 2025, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), a tese “Processos de mediação do assédio moral no cotidiano de chefes intermediários: subsídios para a prevenção”.
O estudo analisou especialmente situações relacionadas à gestão por metas e à avaliação individual de desempenho. Segundo a pesquisa, esses modelos apareceram associados a situações que favorecem a ocorrência de assédio moral, além de produzirem competição, desconfiança e enfraquecimento da solidariedade entre trabalhadores.
A contribuição apontada pela pesquisa é importante para quem trabalha com prevenção: olhar para o assédio somente como resultado da atitude de uma pessoa pode ser insuficiente.
É necessário também observar as práticas de gestão e a organização do trabalho.
A própria Fundacentro afirma que a compreensão e a prevenção das violências e dos assédios relacionados ao trabalho exigem analisar as relações existentes nesses ambientes e o papel da organização do trabalho e dos modelos de gestão.
Então, onde mora o risco?
Pode estar na forma como as metas são estabelecidas.
Pode estar na maneira como as pessoas são cobradas.
Pode estar na ausência de suporte.
Pode estar na forma como conflitos são conduzidos.
Pode estar em práticas de gestão que estimulam competição excessiva.
Pode estar também na dificuldade de reconhecer e enfrentar comportamentos inadequados.
Mas existe um cuidado importante aqui: não podemos afirmar que toda cobrança, toda meta ou todo conflito seja assédio.
O que precisa ser analisado é o contexto de trabalho, as práticas adotadas, as relações estabelecidas e os fatores que podem contribuir para situações de violência ou assédio.
É justamente por isso que o tema precisa entrar na conversa sobre riscos psicossociais de maneira séria e estruturada.
Uma pergunta para começar
Se você pudesse fazer apenas uma pergunta para compreender como as pessoas percebem o ambiente de trabalho diante de situações de assédio, qual seria?
Agora pense:
As pessoas se sentiriam seguras para responder honestamente?
Se a resposta for “não sei”, talvez essa já seja uma informação importante.
Prevenção começa antes da denúncia.
Começa pela capacidade da organização de olhar para o próprio ambiente de trabalho, reconhecer os fatores de risco e construir formas de enfrentamento.
E isso exige mais do que uma palestra isolada.
Exige escuta, análise, participação e ação.
Porque falar sobre assédio não é apenas falar sobre o comportamento de quem assedia.
É também olhar para como o trabalho está organizado, como as relações acontecem e quais condições podem favorecer ou dificultar a prevenção.
Para colocar a conversa em prática
Reúna um pequeno grupo e proponha uma única pergunta:
“O que, na nossa forma de trabalhar, pode dificultar que uma pessoa se sinta segura para falar quando vivencia ou presencia uma situação de assédio?”
Não peça nomes.
Não peça relatos pessoais.
Não tente descobrir quem fez o quê.
O objetivo é olhar para o ambiente e identificar possíveis barreiras à prevenção.
Depois, pergunte:
“O que poderia ser diferente?”
É aí que a conversa começa a sair do discurso e pode caminhar para a ação.
Onde mora o risco?
Nem sempre ele está onde a gente procura.
E essa é a conversa que quero provocar nesta série.
Onde Mora o Risco é um convite para olhar para os riscos psicossociais relacionados ao trabalho não apenas pelo que está escrito, mas pelo que acontece na prática.
Porque identificar o risco é apenas o começo.
A pergunta seguinte é:
o que vamos fazer com essa informação?
Quer conhecer a Metodologia RISCO, validada cientificamente? Mande uma mensagem. Podemos conversar sobre como essa metodologia pode ser aplicada à realidade da sua organização. É com ela que realizamos o Mapeamento de Riscos Psicossociais: do diagnóstico à ação, transformando informação em caminhos possíveis para a prevenção e o cuidado. E essa é só a primeira conversa: acompanhe os próximos textos da série “Onde Mora o Risco” aqui na newsletter Escolhas que TransFORMAM ou no blog da Eu E Minhas Escolhas.
Até a próxima conversa!


